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=COMUNICADO À IMPRENSA=

Pela nossa dignidade…. Não é uma greve, é um grito!

A pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV2 impossibilitou a comemoração do Ano Internacional do Enfermeiro, proclamado pela Organização Mundial da Saúde, ocasião que certamente seria aproveitada para se afirmar a importância da Classe em todos os sistemas de saúde. No entanto, sem pompa nem circunstância, e sem discursos ocos, essa importância não deixou de ser demonstrada. Porém, à custa de muita dor e de muitas lágrimas, numa luta feroz contra um inimigo invisível e desconhecido em que os soldados da linha da frente, com o corpo a suportar todas as balas, foram precisamente os enfermeiros.
A disponibilidade para o duro combate, a coragem, a abnegação, foram reconhecidos e aplaudidos… Muito aplaudidos. E enquanto os aplausos ecoavam em pantalhas de propaganda, todos os dias os enfermeiros eram infetados pelo SARS-CoV2, separados das famílias, caiam para o lado, questionavam o futuro e alertavam, a quem de direito, para a necessidade de se cuidar também dos cuidadores.
Os aplausos, porém, iam estrategicamente abafando as vozes já roucas dos enfermeiros que, na linha de combate, e sem nunca virar as costas ao inimigo, iam clamando o direito a ser tratados com dignidade e com justiça e que esse era o único reconhecimento que efetivamente gostariam de ver gravado na memória da pandemia. E no endurecer do combate, já na sua segunda vaga de ataque, viram fake news proclamarem que, afinal, o salário de um enfermeiro quase se equipara ao de um deputado… De tão ridícula, a mentira tão depressa se esbaforiu como surgira, sendo substituída pelo anúncio de um subsídio extra para quem trabalha em serviços Covid, como se os outros trabalhassem à margem desse combate, aumentando ainda mais a discriminação laboral já existente entre os enfermeiros.
Chegados aqui, vamos então exaltar os reconhecimentos que nos atribuem e proclamá-los aos sete ventos: somos uma classe corajosa, disponível e preparada para a luta; somos uma classe que, num ano trágico, revelou, a um povo grato, o papel vital dos enfermeiros e realçou o seu profissionalismo e compaixão. Mais, somos uma classe profissional cada vez mais capacitada, do ponto de vista científico e técnico, para elevar os níveis de segurança e de qualidade na prestação dos cuidados. E somos uma classe capaz de influenciar novos modelos de cuidados onde os enfermeiros estão no centro dos nossos sistemas de saúde.
Dito isto, é tempo também de reconhecer aos enfermeiros o direito de ser tratados com justiça, dignidade e equidade:
1 - Junto das populações que servimos, com as pessoas, temos de questionar: se progredimos tanto nos últimos anos, ao nível da formação e da capacidade de adaptação aos novos desafios científicos e tecnológicos, por que raio mantêm as nossas carreiras congeladas? Temos o direito de exigir ao Governo que, de uma forma célere, justa e com critérios idênticos para todos, proceda ao descongelamento das progressões da carreira de todos os Enfermeiros, independentemente do vínculo ou da tipologia do contrato de trabalho, contabilizando a totalidade do tempo congelado;
2 - Depois, se demonstramos ser uma classe disponível para combater o duro combate, capaz de dar a vida pela saúde de todos, por que raio há vínculos de trabalho diferentes para enfermeiros iguais? Em nome de que justiça? Naturalmente, temos de exigir, porque aqui é mesmo uma questão de justiça, que se avance com a equiparação, sem discriminações, dos vínculos de trabalho para quem tem Contrato Individual de Trabalho (CIT). e para quem tem Contrato de Trabalho em Funções Públicas (CTFP). É necessário, nomeadamente, retomar e concluir as negociações do Acordo Coletivo de Trabalho(ACT) interrompidas há mais de 1 ano.
3 - Esta pandemia demonstrou também que somos, claramente, uma profissão de risco. O Povo reconheceu e aplaudiu. Neste sentido, achamos mais do que merecido que nos seja atribuído um subsídio de risco, com valor justo, aplicável a todos os enfermeiros independentemente do local de trabalho, categoria profissional ou vínculo laboral, uma vez que esse risco é inerente à profissão.
4 - Por outro lado, devido ao comprovado desgaste e penosidade da profissão, sobejamente reconhecido pelo povo português, que fique consagrado que as condições de acesso à aposentação voluntária dos enfermeiros e com direito à pensão completa sejam os 35 anos de serviço e 57 de idade (base inicial de negociação).
5 - Não menos importante é a exigência de que sejam admitidos mais Enfermeiros com vínculo contratual sem termo. A carência de recursos humanos antes da pandemia era evidente, mas agora a realidade tornou-a ainda muito mais trágica. Todos os dias vemos serviços a encerrar por falta de enfermeiros e vemos muitos colegas a cair de cansaço pela sobrecarga de trabalho.
Somos o mais numeroso grupo entre os profissionais de saúde. Somos mais de 70 mil inscritos na Ordem. Somos no mundo mais de 20 milhões, igualmente o maior grupo profissional que presta cuidados de saúde. Somos a profissão de maior confiança dos portugueses. Somos o pilar de todos os sistemas de saúde.
Disto isto, o que reivindicamos é mais do que justo. Por isso, este pré-aviso de greve, agora publicitado na comunicação social, significa apenas um grito de desespero a rogar que cuidem de nós, com justiça, para que possamos também nós, com profissionalismo e compaixão, cuidar de quem de nós precisa. Junto dos nossos doentes vamos dizer que a palavra greve surge aqui porque é a que os políticos inventaram para se tornarem cegos e surdos. Vamos dizer aos nossos doentes que tudo faremos para que os políticos entretanto abram os olhos e os ouvidos para que continuemos a cuidar com honra e dignidade. Mas, se chegados ao dia 9 de novembro os olhos e os ouvidos, e o coração, se mantiverem empedernidos, pediremos ao Povo que junte a sua à nossa voz. Pois, nós não deixaremos de lutar, e vamos vencer! Porque a nossa luta é justa e os nosso doentes reconhecem-nos!
MUDAR É PRECISO!